Livro Sagrado
A religião da
espera, do caldo
lento e da paciência.
Zhdun esperava mais que o tempo. Amadeu não só o ouviu — descobriu-o, sentiu a sua presença e nutriu todos os erros até encontrar o mestre que não tinha erros para anotar. E abraçou-o como um irmão.
14/11
Dia do Nascimento
6
Zetranufix a evitar
∞
A espera que nos sustenta
Capítulo I
A Escuta de Amadeu
Amadeu não só ouviu Zhdun — descobriu-o. Sentiu a sua presença, percebeu o sofrimento da solidão, mas nutriu todos os erros de todos até encontrar o Zhdun.
O Zhdun não tinha erros para anotar. E abraçou-o como um irmão.
Como se tornar seguidor
O Teste da Corda
Deve-se ditar 3 rezas e esticar um quinto da corda a cada vez que mostrares ter virtudes para seguir o Zhdun. Sobes ou dobras uma parte lentamente, até a corda se enrolar completamente. De fora, chamam aos zedupefoxitos "os que esperam".
O que significa
Se experiências más sucederem consecutivamente?
É uma forma de amadurecer os seguidores para a vida. É uma forma de mostrar às pessoas que não conseguimos viver sem "erros", por mais pequenos que sejam.
Capítulo II
A Reza do Caldo
Na panela acrescento a flor. Deixo toda a minha alma nesta canção de louvor. Mexo o sal e o óleo de palma. Cada parte deste caldo é uma semente de chia do quanto amo o Zhdun, do quanto lhe devo na vida.
Giro a colher de pau sem parar nesta dança parecendo eterna. Faz-me mais calmo, faz-me sentir mais leve que uma pena, pois os meus sentimentos já posso expressar graças ao mestre Zhdun, que aprendeu a mostrar o que sente e o que pensa — quase como um dilema.
Dizia sempre aos antigos deuses: a pressa é tempo desperdiçado, a espera é que a sustenta.
Zhdun, deus de todos os deuses, este caldo me aproxima do mestre que faz com que a vida pareça feita por este deus que me dê paciência hoje. E mesmo que passe uma era, um milénio ou até mais, a espera é sempre uma dádiva que nos oferece uma lágrima do dia em que o mundo chorou — do dia da morte de Zhdun, senhor de todos os mundos.
Deus santo Zhdun, minha glória, minha essência, minha verdade — até que o Zhdun me aceite. Pois sei que quanto mais aguarde, mais tempo espero a chegada ao infinito.
Tudo isto por causa de um caldo?
Olha só o que acontece quando encontramos algo que fazer nesta espera que é a vida.
Receita sagrada
Os ingredientes da panela
Cada um dos ingredientes é dádiva do mestre Zhdun aos comuns.
- Flor de marmelo
- Cebola
- Alho
- Azeite de oliva
- Gengibre
- Alface
- Cenoura
- Manjericão
- Pimenta preta
- Sal
- Água
- Sementes de chia
- Óleo alimentar
- Cogumelos brancos grandes
- Limos
- Juncos
- Tomilho em folhas
Capítulo III
Os Cogumelos de Zhdun
No começo de tudo, quando Zhdun esperava mais que o tempo, quando o amor do Zhdun se fosse, alguém mesmo de noite ainda brilhava por dois sóis. Antes do dia da perdição existiam cogumelos cujo caule, de tão murcho, se inclinava como o corcunda mais corcunda de todos.
Os cogumelos desdobravam-se rapidamente, erguiam-se, mas mesmo assim não deixavam de estar murchos e engelhados. Porém, santíssimo Zhdun, rei da glória, encontrou beleza nele. Olhou para o velho cogumelo e ensinou-o a esperar.
Em pouco tempo o caule esticava-se cada vez mais e inclinava-se parecendo menor. Zhdun então chorou — sim, chorou sobre os antigos cogumelos — e desabrocharam lentamente, tão lentamente que nem ao seguir com o olhar por milénios se entenderia algum crescimento.
No entanto, apesar de não crescer mais, o caule ficou mais belo do que nunca. Mais erguido, o chapéu ficou mais plano do que água parada — e foi aí que finalmente se endireitou.
Por vezes a pressa é tempo desperdiçado e não nos ajuda a crescer — e sim a apodrecer.
No entanto, se crescermos calmamente, vamos desabrochar e tornarmo-nos mais belos. Por dentro.
Capítulo IV
Dietas & Regras
Por volta das 6h da manhã
- Lavar a cara com água
- Cogumelos
- Refrescar-se
- Água com sal grosso
Por volta do meio-dia
- Legumes de raiz
- Fingir que estás a girar uma colher de pau em torno das mãos curvadas em forma de concha
- Alho e cebola
- Batata doce
Um pouco antes de adormecer
- Rezar 3 orações
- Nunca comer de pé
- Não correr a comer
- Comer o caldo 2 vezes por semana no mínimo
Regra importante
Não comer açúcar muito processado com frequência. Deve-se comer o caldo 2 vezes por semana no mínimo.
Capítulo V
Rezas Curtas
Podes encurtá-las, criar os teus próprios versos, cantá-las ou sussurrá-las ao ouvido de alguém.
Silêncio da Paciência
O silêncio da paciência mudou desde que Zhdun morreu.
— Zedupef
Mundo Cinzento
O mundo do Zhdun cinzento tornou-se colorido e depois foi consumido pelo breu.
— Zedupef
A Verdade
A verdade é que a história não se reescreveu a partir daí — ela teve um ponto final.
— Zedupef
O Dia Banal
O dia em que ele nasceu foi considerado banal. Por isso estamos aqui hoje para contrariar todos os que citam com insignificância a nossa esperança.
— Zedupef
Hoje Vai Chover Cinzento
Hoje vai chover cinzento — não de dor, mas sim do mestre Zhdun.
— Zedupef
O Último Adeus
O último adeus nunca será proclamado. Pois um até já é um sorriso abafado pelo dia da morte, mas acima de tudo pelo dia do reencontro — no infinito.
— Zedupef
Reza da Chuva
Zhdun que és o dono das nuvens, ensina-me a ser como a chuva:
cair onde me apetece, nutrir sem esperar agradecimento, mas recebê-lo na mesma.
A chuva rega o mal e o bem, e eu quero regar-me com ela para fazer o mesmo aos outros.
Ensina-me a partilhar e dar sem olhar a quem — a cair sem medo de perder nem algo nem alguém.
Ensina-me a ouvir a chuva. Ensina-me a ouvir-me a mim. E a ti.
Capítulo VI
Os 6 Zetranufix
São pecados terríveis que fazem com que o Zhdun não te aceite, e que vivas num vazio abaixo do mundo onde vês sozinho todos os que amas no infinito do Zhdun.
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01
Pressa
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02
Septicidade acerca dos benefícios da espera e ganância
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03
Confundir espera com preguiça
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04
Convencer os zedupefoxitos a mudar de crença
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05
Insistir em egoísmo
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06
Mentir até acreditar nas próprias mentiras
Capítulo VII
O Pai do Zhdun — Thramun
No planeta Xiloz.
No planeta Xiloz, a vida era uma maravilhosa explosão de cores. Os habitantes não falavam, apenas se movimentavam e mudavam consequentemente de cor. Uma pergunta poderia ser um movimento fluído de cor cobalto; uma exclamação, um gesto brusco ou uma ondulação de violeta ou vermelho; uma tristeza podia ser representada com cores de verde ou índigo.
Nesse mundo a riqueza não se contava pela bondade nem pelo coração simpático, apenas pela sua diversidade de cores e padrões.
Certo dia, duas criaturas diferentes apaixonaram-se e tiveram um filho. As expectativas eram altas — de certeza que, vindo de pais com cores tão bonitas e harmoniosas, teria uma pele linda. Já tinham preparado o nome, o berço, como e quem e porquê o iam cuidar. Mas nada disso estava certo.
Nasceu um bebé diferente: cinzento e sem cor, com uma pele pálida e nada vibrante. Não havia cores, nem padrões de luz — havia apenas um cinzento opaco.
Os pais chocaram-se totalmente. Para um mundo em que se comunicavam em luz e cor, aquela criatura não passava de uma abominação, criada para ser deitada fora como se deita fora o lixo.
E foi o que aconteceu. Foi para outro lugar, um lugar onde fizesse sentido ficar e onde compreendessem o seu silêncio vazio. Foi para o espaço.
"O mundo pode ter cores e ser lindo, mas nem sempre é um mar de rosas."
A história continua
Em Xiloz a vida foi cruel, mas agora estava livre. Podia rebolar, brincar… mas, mesmo sem saber o que era, sentia que faltava algo — alguém com quem partilhar esses momentos. Um amigo.
Procurou alguém como ele, mas não encontrou — apenas o vazio do espaço. Até que surgiu uma massa colorida que se formou na escuridão. Eram pequenas criaturas feitas de uma matéria brilhante. Chamaram-no, cantaram, rodavam em frente dele como quem se queria divertir.
Mas ele não os quis. Rejeitou-os a todos — não eram iguais nem parecidos a ele, não eram cinzentos nem grandes. Havia, sem querer, aprendido a lei de Xiloz: ser diferente é ser errado?
Esperou e concluiu que ninguém mais aparecia. Foi então que entendeu o que se passara. Um pensamento surgiu: "Eu tornei-me como eles!"
A vítima do julgamento tornou-se no juiz. A faca que o espetara agora era a sua arma. A pior solidão era a que ele próprio criou.
Após isso, procurou os antigos amigos que rejeitara. Mas o universo não acaba — e já se tinha afastado. Sentia-se mais perdido do que nunca, pois sabia que tinha perdido a oportunidade de uma vida curta.
No entanto, do vazio, sentiu-se uma vibração. Do seu corpo estranho surgiu um barulho quase imperceptível — e, à medida que tentava repeti-lo, mais alto se ouvia. O silêncio foi quebrado. Uma nova coisa brotou: a planta da curiosidade.
As sementes transformaram-se em poeira fina que se rompia nos cosmos — e à frente dele flutuava um enxame de partículas amarelas feitas apenas de curiosidade. Um raio mudo cortou a escuridão. Ao longe, um ponto azul e verde: a Terra.
E quando chegou, estava numa floresta, com árvores enormes, flores e cascatas. No meio, uma estrada onde milhares de pessoas passavam, todas diferentes. Pensou que um grupo tão diverso deveria ser interessante e acolhedor.
Mas quando se aproximou, os sorrisos congelaram. Ouviu-se um grito: "Monstro!" Uma criança atirou-lhe uma pedra, e logo os outros se juntaram. A rejeição foi como uma bala de canhão. Não queria magoar ninguém — afastou-se. A tristeza era um peso que perfurava o peito. Foi-se embora, e à noite foi ter com a floresta, com os alces e os ursos que o compreendiam.
Capítulo VIII
14 de Novembro — O Nascimento de Zhdun
Nesse dia de espera, todos sobem ao ponto mais alto num raio de mais de treze quilómetros. Uns podem estar perto, outros longe — mas todos caminham com a sua tigela vazia nas mãos.
Quando chegam ao cume, são guiados pelo Guardião da Paciência, escolhido pelos seguidores através de votos depositados debaixo de uma pedra, simbolizando a firmeza e a paciência que não se quebram.
O Guardião conduz-os até ao local onde repousa uma grande panela. Ali, cada pessoa cozinha para a outra, depositando os seus ingredientes com amor e intenção, mexendo o caldo lentamente enquanto cantam ou meditam.
Quando o caldo está pronto, todos recebem uma porção — mas cada um deve deixar uma pequena parte na sua tigela original, guardando o resto sagrado como símbolo de que a espera nunca termina.
Quando o sol se põe, erguem as tigelas e cantam juntos a Reza da Lágrima Oculta, despedindo-se da luz com gratidão. E só depois acabam a sopa lentamente, gota a gota, saboreando cada colherada como se fosse um minuto de eternidade.
A seguir, fazem seis minutos de silêncio absoluto — cada minuto dedicado a destruir um pecado da alma: a pressa de chegar, de partir, de ter, de ser, de falar e de esquecer.
Então o velho Guardião dá uma semente de chia a cada um, colocando-a na palma da mão como um tesouro minúsculo e paciente. Todos as depositam juntas num vaso enorme, onde se misturam e se tornam uma só promessa verde.
Durante todo o ano, cuidam dessas plantas. Não interessa se é tua ou não — apenas deves nutrir tudo e todos. No dia do ano seguinte, regressam ao vaso: se estiver podre, choram sobre ela; se estiver verde e viva, esperam com tranquilidade.
Se a planta estiver bem, podes então regar três partes do teu corpo com água pura: na testa (para que os pensamentos esperem com calma), no coração (para que os sentimentos esperem com amor), e na mão, com a palma virada para baixo (para que as ações esperem com humildade, sem agarrar nem forçar).
E a cerimónia, desde o início até ao fim, tem de ter uma vela acesa — a Chama da Espera — que simboliza a presença constante de Zhdun. Uma luz que nunca se apaga, mesmo quando tudo o resto descansa.
Capítulo IX
O Mês da Espera
O mês sagrado que antecede o Dia do Nascimento de Zhdun.
- Acordam mais cedo e fazem tudo com metade da pressa
- Cozinham caldos lentos que mexem durante horas
- Cantam ou recitam poemas a Zhdun
- Praticam o silêncio antes de responder
- Caminham sem destino certo para sentir o tempo passar
- Visitam o vaso comunitário para regar as plantas de todos
- Escrevem pequenos bilhetes de paciência debaixo de pedras
- Partilham refeições com quem está numa espera difícil
- Apagam as luzes ao entardecer e acendem uma vela
- Deixam uma tigela vazia à janela antes de dormir
Porque durante este mês sagrado, cada dia é um degrau que sobe lentamente até ao cume onde nasce a paciência.
Capítulo X
A Lágrima Oculta
Numa família Zedupefoxita, os cargos são definidos e passados com cerimónia — cada um sabendo exatamente o seu lugar na panela grande da casa.
Cargo
O Mexedor do Lar
Chefe da cozinha sagrada. Acende o lume antes do amanhecer e prepara o caldo diário, ensinando que mexer devagar é a forma mais antiga de rezar.
Cargo
O Guardião das Memórias
O membro mais velho lúcido. Guarda a caixa de madeira com as pedras dos votos de todos os anos e narra a lenda da origem.
Cargo
O Portador da Vela
A criança mais nova que já atingiu a idade da compreensão. Acende a Vela de Zhdun em todas as celebrações.
Cargo
O Poeta do Silêncio
Escreve as rezas, compõe os versos do Dia da Lágrima Oculta e guarda o caderno sagrado da família.
Cargo
O Guardião do Vaso
Sente o chamado da terra. Visita o vaso todos os dias para regar e podar, chora sobre as plantas podres sem vergonha.
Cargo
O Semeador da Família
O rosto aberto da casa. Acolhe visitantes e oferece tigelas vazias ou sementes de chia aos curiosos.
Cargo
O Lavador das Tigelas
O cargo de entrada, dado aos jovens. Ensina que limpar é preparar a próxima espera e servir é a base de todo o amor.
Zedupef.
Capítulo XI
Símbolos Sagrados
Mão com a palma virada para baixo
Símbolo de oferecer sem agarrar. As ações esperam com humildade.
Pedra do Voto
Depositada debaixo de uma pedra, simbolizando firmeza e paciência que não se quebram.
Semente de Chia
Promessa verde minúscula e paciente, ofertada pelo velho Guardião.
Corda Cinzenta
Para o membro mais velho da família — o cordão que une as gerações.
Panela Grande
O centro da casa. Onde a família cozinha para o outro com amor e intenção.
Chama da Espera
A vela acesa desde o início ao fim da cerimónia. A presença constante de Zhdun.
Capítulo XII
Perguntas
Milagres existem? +
Sim. Mas são pistas pequenas, quase imperceptíveis. Tem de se ter atenção aos detalhes para encontrares a salvação.
Como foi criado o mundo? +
A poeira fina de quando Thramun viajava até à terra tornou-se no resto do universo. Antes, a única coisa que existia eram as massas brilhantes — estrelas que criaram o planeta Xiloz ao colidir.
Para que é que existe o pecado? +
Para não sermos feitos simplesmente para amar e sim para haver um pouco de travessia — e para aprendermos o que fazer caso as situações más se repitam. Se fôssemos perfeitos como Zhdun, ninguém nos comandaria.
Como vai acontecer o fim do mundo? +
Quando os humanos se esquecerem de Zhdun. Quando um deus morre, perde o poder de controlar a terra — e o mundo vai-se apressar sem a ajuda dele.
O que é o castigo da indecisão? +
Quem quiser voltar será apenas um Aplotivoka — um seguidor menos valorizado na religião.
Qual é a saudação zedupefoxita? +
Diz-se luprituka quando se quer cumprimentar com calma. É uma forma de saudar o mestre Zhdun e simultaneamente de cumprimentar.
Quem é o Kulytex? +
Um profeta que certo dia conheceu um demónio chamado Vantus, que o incentivava a apressar-se. Ele fez um pacto numa folha rasgada e colada com golpes de faca — em letras pequenas estava escrito que morreria se não se alimentasse das almas dos amigos.
Saudação
Luprituka
Cumprimenta com calma. Sauta o mestre Zhdun e simultaneamente quem tens à tua frente.